Críticas | Dom de Iludir – 1ª temporada
A primeira temporada de “Dom de Iludir” estreou em 28 de outubro no catálogo da Netflix.
Na sua essência, melodramas são aqueles projetos baseado no exagero do sentimentos, emoções intensas ou dramáticos. É um gênero que está mais associado, no imaginário, com produções mexicanas, mas ainda está presente no que conhecemos no Brasil.
Com o lançamento de Pedaço de Mim, em 2024, a Netflix inaugura um espaço para o gênero no Brasil. Ao lado de nomes importantes da teledramaturgia, a plataforma de streaming está trazendo um projeto ambientada na alta sociedade carioca e com emoções afloradas.
Em Dom de Iludir, acompanhamos a colecionadora de obras de arte Lúcia Rossetti (Marieta Severo). Ela vive uma relação complexa e turbulenta com a filha Maíra (Alice Wegmann), e a dinâmica entre as duas ganha novas tensões ao cruzarem o caminho com Irina (Nanda Costa) – o que desencadeia uma trama marcada por segredos, intrigas e mistérios.
Os dez episódios do melodrama, criado por Diane Maia e Mirna Nogueira, é uma narrativa sobre o poder de enganar. Nenhum personagem é confiável e, muitas vezes, parecem retroceder em seus arcos. Sob a direção geral de Mauro Mendonça Filho, os capítulos ganham camadas conforme momentos cruciais são inseridos e que movimentam o necessário – mas isso não é o suficiente.
Lúcia controla a filha, visando a proteção de Maíra. Por vezes, se concentra mais em situações que envolveram a filha quando criança. Entretanto, a personagem é fragilizada, mas ainda utiliza seu poder monetário para afastar quaisquer problemas – ou pessoas que possam atrapalhar seus planos. Já Maíra oscila entre ser uma adulta funcional e ainda precisar da mãe para quase tudo. O tanto que se desculpa é problemático, qualquer empecilho é motivo para regredir em sua própria jornada e ficar paralisada.
Irina, por outro lado, é apenas uma peoa em um esquema bem mais complicado. Seu relacionamento com Bóris (José de Abreu), Bárbara (Luciana Paes) e Natália (Giovanna de Jesus) são os mais predominantes para além do seu envolvimento com as Rossetti. Aqui, tudo caminha a passos que demoram para encontrar motivações, empatando com o núcleo com Sandra (Laila Garin) e Jorge (Hamilton Dias), funcionários das Rossetti, e com as investigações das personagens de Heloísa Jorge e Allan Souza Lima.
Os roteiros parecem faltar urgência do ponto de ignição do enredo. Como disse acima, parecem regredir para conseguirem preencher os dez episódios – quando poderiam fazer algo mais dinâmico, com mais viradas que intriguem o público. Existe uma lentidão que não condiz com o formato.
A história gosta de ser ambientada na alta sociedade carioca, e isso é um fator interessante e potente, principalmente ao explorar como Maíra não é tratada como adulta, sempre empurrada em suas ações. Os elementos estão presentes, sem a junção que faria o seriado ser uma experiência para além de quadros valiosos.
Assim, Dom de Iludir é uma produção que deseja ser mais poderosa do que realmente se apresenta. Apesar de nomes incríveis da atuação, e que sustentam muito bem suas personagens, a narrativa sempre retrocede quando deveria trazer viradas que deixassem o público tonto com as informações. Explorar mais em flashbacks e um mergulho real em motivações talvez fossem a saída mais coerente com o formato desejado. Entretanto, continua algo melodramático, novelesco, com um verdadeiro DNA do audiovisual brasileiro, que atrai a audiência – e que só precisava de ajustes para ser algo mais vigoroso.
A primeira temporada de Dom de Iludir estreou em 28 de outubro no catálogo da Netflix.

