Críticas | A Odisseia
Dirigido e escrito por Christopher Nolan, “A Odisseia” estreia em 16 de julho nos cinemas brasileiros.

Existem projetos cuja grandiosidade assusta. Afinal, contar histórias de séculos podem ser complicadas, mexendo em vespeiros que vão além de figurinos, maquiagem ou cenários.
Após vencer como Melhor Diretor e Melhor Filme com Oppenheimer, em 2023, Christopher Nolan anunciou que estaria trabalhando em seu projeto mais ambicioso. A Ilíada e A Odisseia, histórias atribuídas a Homero, estão constantemente no imaginário popular, sendo adaptadas desde a década de 1910 nos cinemas. Assim, é quase inevitável que novas versões cheguem e tragam algo novo. Porém, nunca podemos descartar como Nolan realiza essas inovações.
Nesta versão de A Odisseia, a narrativa é concentrada na jornada de Odisseu (Matt Damon) para retornar à Ítaca após a Guerra de Troia. Entre encontros com Ciclopes, Sereias e feiticeiras, o Rei de Ítaca busca voltar para Penélope (Anne Hathaway), que está sendo cortejada por diversos pretendentes que querem o trono do reino.
Dirigido e escrito por Nolan, o filme é um épico suntuoso em suas escalas. São sequências grandiosas, com tensões em cada momentos dos 172 minutos. O diretor mistura o realismo com toques de magia, dando espaço para o fantástico de maneira tátil. As sequências que envolvem Polifemo (Bill Irwin) e Circe (Samantha Morton), por exemplo, são escalonadas e exuberantes, mas com o toque de Nolan palpável, intrínseco em cada instante.
Ao mesmo tempo, as cenas em Ítaca são o que enraíza o filme na humanidade. Hathaway está formidável como Penélope. Abatida por estar sem o marido há 20 anos, mas resistindo as demandas de anciãos para se casar novamente, possui cenas importantes ao lado de Tom Holland (que interpreta Telêmaco, seu filho).
O ator inglês está em um dos papéis mais desafiadores, seja pelo combate físico ou pelo emocional, e entrega um ótimo arco narrativo. Telêmaco precisa ouvir as histórias sobre o pai e assumir sua posição de liderança no reino, mesmo com antagonistas como Antínoo (Robert Pattinson, em uma vilania deliciosa) e Políbio (Corey Hawkins), dois dos 108 pretendentes de sua mãe, em seu caminho. Assumir essa posição não é tarefa fácil para ele, mas a ajuda de Eumeu (John Leguizamo) é fundamental para seu crescimento, assim como diálogos com Menelau (Jon Bernthal) e Helena (Lupita Nyong’o, que também aparece como Clitemnestra) para entender o papel do pai na Guerra – e as possíveis ramificações sobre a destruição de Troia.
A narrativa não-linear permite o espectador compreender as várias camadas da história. Do presente a Troianos e os encontros desafiadores com seres míticos na jornada para casa, a narrativa é sucinta mais eficaz nessa história de amor que é Odisseu retornando para Penélope. As breves cenas com Zendaya interpretando Atena é a consciência do rei de Ítaca, principalmente quando está preso com Calipso (Charlize Theron), que deseja prendê-lo como seu marido eterno. É importante também ressaltar que Himesh Patel (interpretando Euríloco) é o contraponto importante a Damon em todas as cenas que estão juntos.
A trilha composta por Ludwig Görasson também impacta, assim como a cinematografia de Hoyte van Hoytema. São grandiosas, construídas de maneira interconectadas, que só crescem no formato em que o filme foi gravado.
Assim, A Odisseia reconhece ser uma épico, uma história que atravessa séculos e iniciados através dos contos orais. Nolan está em um dos meus momentos mais brilhantes, contando histórias que são simples, sem malabarismos explicativos, com mensagens que atravessam gerações. Damon, Hathaway e Holland são as forças vitais desse longa-metragem, com destaque para o antagonismo de Pattinson e a maneira como o diretor encontrou para misturar seu realismo com a magia tão presente nas obras de Homero.
A Odisseia estreia em 16 de julho nos cinemas brasileiros.