Opinião | Com greve de roteiristas e dos atores, Hollywood busca honrar suas histórias

Executivos de estúdios e plataformas de streaming estão dispostos a desmerecer seus produtos e fingir que estão preocupados com a indústria num geral.

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Roteiristas entraram em greve em maio. (Foto: Reprodução)

Após 40 anos, o sindicato de atores de Hollywood anunciou ontem, 13 de julho, que estará em greve depois da Aliança de produtores de cinema e televisão (Alliance of Motion Picture and Television Producers, em inglês) falhou em compreender os pontos importantes para acordar o novo contrato com o sindicato.

Pela primeira vez, desde da década de 1960, os atores e os roteiristas paralisaram seus trabalhos em Hollywood juntos. Entre as novas demandas desejadas pelos sindicatos, estão uma compensação mais justa em relação aos residuais e, também, controle do uso desenfreado envolvendo a inteligência artificial.

Outras demandas também estão em pauta, como o uso de mini-salas de roteiristas e o não pagamento delas, diárias que não condizem com o novo modelo de produção de produtos audiovisuais, etc. Mas a ganância e as declarações risíveis de executivos, são o que ganha destaque nesse momento.

Ao declarar que as demandas dos sindicatos são “irreais”, Bob Iger, CEO da Disney, mostra que não está trabalhando para que seus produtos sejam valorizados. Na mesma data, Iger confirmou que estará nessa posição dentro da empresa até 2026 – com um aumento significativo de seu salário. David Zaslav, presidente da Warner Bros. Discovery, e os CEOs da Netflix também mostraram que não compreendem muito bem os negócios, esnobando como seus conteúdos serão produzidos.

Pedir para que haja uma transparência nos números de audiência de plataformas de streaming, não é irreal. É o mínimo para que a compensação seja justa em um novo modelo de consumo do audiovisual. O fato que as plataformas podem excluir os conteúdos de seus catálogos (para “dedução de impostos”), também mostra que é uma maneira de não pagar aqueles que fazem o produto acontecer. E nem vamos comentar como alguns atores e roteiristas acabam não se qualificando para receberem convênio médico devido ao modelo que os estúdios tentam fazer acontecer, onde a compensação é, basicamente, “por amor”.

O uso da inteligência artificial também deve entrar em jogo. Segundo foi noticiado, os estúdios queriam que os figurantes fossem escaneados para que fossem inseridos em produções através da tecnologia – mas não seriam pagos pelo uso de sua imagem. Em um momento assustador da atualidade, a imagem, a escrita e a voz dessas pessoas seriam de propriedade de empresas, sem terem qualquer controle sobre como serão usadas.

A verdade é que os executivos dos estúdios e plataformas nunca quiseram realmente barganhar sobre os novos acordos. E isso acontece desde o segundo semestre de 2022, quando plataformas e canais decidiram por cancelar projetos já bem encaminhados ou quase finalizados (caso de Batgirl, onde Zaslav disse que o filme não era “lançável”). Os líderes dessas empresas querem obter lucros, continuar com modelos ultrapassados, mesmo vivendo em um momento diferenciado.

Eles não reclamam de aprovarem orçamentos absurdos, que dificilmente vão conseguir garantir o retorno financeiro necessário, mas estão dispostos a não negociar acordos que reflitam algo que seja agradável para todos os envolvidos, sem que precisem implorar por garantias básicas.

No fim, as greves só mostram um sistema que estava quebrado. Executivos afirmam que atores e roteiristas estão prejudicando outros profissionais da indústria, fingindo que não têm culpa e que não demitem constantemente para aumentarem seus salários. A necessidade de parar, de reivindicar algumas ações e garantir direitos é apenas um ponto da greve, com uma inflamação dos discursos para mostrar quem realmente está à mercê de quem.

Executivos esquecem que sem os roteiristas, atores, diretores, iluminadores, maquiadores, figurinistas, etc., eles são apenas pessoas comandando um deserto. As paralisações são respostas para demandas incabíveis e ridículas para um consumismo acelerado, onde buscam somente resultados e jamais vão admitir que não sabem gerenciar.

Enquanto isso, atores e roteiristas querem que a narrativa mostre que suas histórias importam bem mais do que os executivos querem. Atores e roteiristas querem mostrar que Hollywood ainda tem resquícios de alma, que não se tornou uma indústria falida e desesperada por dinheiro – mesmo que isso seja o motor do audiovisual no momento.

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