Crítica | Aftersun

Estreia de Charlotte Wells, “Aftersun” trabalha a mudança de perspectiva com as nossas próprias memórias com o tempo.

A memória sempre foi um dos assuntos mais abordados pelo cinema. Esse ano mesmo tivemos o próprio Memoria, de Apichatpong Weerasethakul (crítica aqui), e Casablanca (1942) entra na lista dos melhores à trabalharem esse tema tão universal, mas ao mesmo tempo tão complexo, já que ela pode ser boa, ruim, ou uma mistura da qual você não consegue diferenciar os dois.

Memória é uma coisa maravilhosa se você não precisa lidar com o passado”. Essa frase de Céline em Antes do Pôr do Sol (2004) resume muito bem a dualidade do tema.

Aftersun, belíssima estreia da diretora Charlotte Wells, traz dois tipos de memória: a gravada em vídeos de férias e os momentos em que a protagonista Sophie guarda na sua cabeça.

Mas ao invés de ser apenas um filme de férias, o longa-metragem trabalha a questão da inocência da infância, quando muitas vezes não sabemos o que nossos familiares estão passando por conta da bolha que eles nos cercam para nos sentirmos bem.

Paul Mescal, ator que ficou conhecido pela série Normal People (2020), interpreta Calum, pai de Sophie (Frankie Corio) e que visivelmente (para nós) está passando por alguns problemas pessoais.

Charlotte Wells é muito delicada ao trabalhar o personagem, já que só vamos decifrando ele aos poucos com olhares e diálogos curtos, mas muito expressivos.

Logo no início do filme, Sophie está filmando o pai e os dois parecem se divertir. Em certo momento, ela fala que tem 11 anos e brincando, diz que seu pai em breve fará 131 anos. Na sequência ela pergunta para o pai: “O que você queria ser quando tinha 11 anos?” e logo a expressão de Calum muda drasticamente, e ele diz para ela parar de filmar.

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Foto: Reprodução

E é de maneira delicada que ela constrói a relação dos dois também, mostrando a conexão muitas vezes sem utilizar nenhum diálogo, como na cena em que Sophie está dormindo e ouvimos apenas a respiração dela, quando corta para Calum dormindo e continuamos a ouvir apenas a respiração, mas dessa vez dele, enquanto Sophie está deitada ao lado olhando para ele.

Aftersun não é só a relação de pai e filha em uma férias filmada com uma camêra, mas sim a mudança da nossa percepção do mundo em idades diferentes onde não só o mundo como as pessoas próximas de nós se revelam diferentes do que conhecíamos.

Aftersun estreou em 1° de dezembro nós cinemas brasileiros.

Nota:

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